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A Pequena Coleção Poética de Advertências é uma exposição artística realizada pelo artista visual Douglas Colombelli  que se apresenta em um conjunto de peças em suportes bidimensionais e tridimensionais. Os desenhos, pinturas, fotografias e cerâmicas se complementam em uma coleção que tem no conteúdo figurativo/ilustrativo o encontro com o alegórico, irreverente e inusitado.

         O mote produtivo desta exposição descende das reflexões do artista frente a questões atuais, como a passividade dos sujeitos diante da precariedade; a dispersão e distração que a disponibilidade da informação implica nos sujeitos e o sentimento de ação inócua diante das superestruturas mercadológicas, políticas e sociais que controlam nosso tempo. Tais reflexões surgiram e são debatidas no Grupo Pan: Arte e Emancipação, grupo de estudos sob a coordenação do artista, no Instituto Federal do Paraná. Neste aspecto, a exposição se mostra de otimismo inveterado, onde a conotação de niilismo que a realidade impõe é sumariamente substituída pela alegria responsável contra as adversidades.

           A ideia de pequena coleção vem da construção do conjunto variado que a exposição apresenta, uma coleção que, à primeira vista, remete aos gabinetes de curiosidades do século XVII. Já sobre a poética de advertências, encontra-se o repertório discursivo do conjunto: a advertência sobre a urgência da solidariedade onde o individualismo e distração imperam. As cartas, literaturas e produções diversas de advertência são emblemáticas na reflexão da nossa sociedade.  As discussões sobre a massificação da sociedade (a partir de Theodor Adorno), sobre as formas das sociedades de controle ( abordados por Gilles Deleuze e Félix Guattari, também por  Michel Foucault e seus próximos), sobre a sociedade do espetáculo (Guy Debord, Nicolas Bourriaud), da crise intermitente ou litígio (Zygmunt Bauman, Jacques Rancière), do cansaço e da distração (Byung- Chul Han, Franco Berardi, Guilherme Wisnik), entre muitas outras produções, são todos argumentos construídos sobre perspectivas factuais que necessitam de atenção e que corroboram na reflexão inerente à perspectiva da exposição.

         Sobre a questão técnica das obras apresentadas, a proposta se mostra de cunho figurativo e híbrido, onde a mixagem entre suportes demonstra o domínio técnico de práticas tradicionais (desenho, pintura, cerâmica e fotografia) aliado à prática experimental (objeto trouvè, assemblage, associação e apropriação). Desta forma, as obras se constituem de “peças” que são montadas em conjuntos específicos, propiciando uma leitura associativa entre os signos dispostos. 

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Os sentidos sentidos 

Por Samuel Radaelli

Quem o mais profundo pensou, ama o mais vivo

 (Hörderlin, Sócrates e Alcebíades)

 

                Para que serve a arte? Seu valor está justamente em desprezar a pergunta, sua dignidade afirma-se em contrariedade às demais áreas do espírito humano, pois ela não precisa justificar sua existência em razão de uma tarefa que resulte em um ganho objetivo. Com isso, equipara-se ao pensamento, como uma tarefa humana, a qual também não é funcionalizada, afinal, só pensamos de verdade quando não estabelecemos a necessidade de um resultado para essa ação.

A arte faz pensar e sentir, com isso congemina duas inteligências: a da razão e a da sensibilidade. A arte produz espanto, de que nasce o pensamento, mas também ela é uma janela aberta aos afetos, para que eles possam nos afetar de modo a revelar nas pessoas a sua humanidade.

                       As artes e as letras não possuem outra razão ontológica que não seja a produção de sentidos às consciências. Enquanto as outras tarefas do engenho humano precisam dos signos como meio para algum propósito, o trabalho artístico, em seu ofício de produzir sons, formas, imagens, gostos e cheiros, tem nos ícones o seu fim, deixando os resultados em aberto. Para tanto, os signos são também a memória do experimentado pelo sujeito e pela história, seja pela razão, seja pelo sentimento. Alerta-se a Hobbes de que a memória é mais do que a sensação em decadência. Um signo para ser compreendido demanda infinitos outros, nisso mora a sua transcendência; dessa forma ele pode ser a ascendência das sensações, movimento que tenta dar conta de espelhar quem somos para poder decantar aquilo que poderemos ser.

                                 Douglas Colombelli Parra Sanches dispara, sem fúria, contra a resignação violenta, em que o sujeito só rompe (com) o medo graças ao ódio, agradecendo à ira por poder sentir algo que o tire da rotina, sem saber que está autorizado a odiar somente aquilo que lhe é semelhante. Na mesma autorização, ama aquilo que tenta imitar, mas não consegue, porque não conhece o imitado. Na “Pequena Coleção Poética das Advertências” a ascensão de sensações provocadas pelos símbolos passa a gerar outras formas do sublime. Para isso enfrenta a estafa e a apatia que no presente evolui para o ódio, sem ser sua única causa.

                                 O revoltado on line sumiu como surgiu! Aparecido na cegueira da fúria do seu tempo, a mesma polifonia que o trouxe, dissolveu-o. Talvez o pulsar da ira lembre o “Revolucionário Passivo” da sua condição vivente; irado, o medo e a repetição não o condicionam. O resignado violento, vai sair da passividade pelo ódio, salvando-se, assim, do tédio; sentirá as grandes pulsações do humano graças a crueldade com os mais fracos, mas isto dura pouco: depois do surto vem a culpa. O “Revolucionário Passivo” está entretido demais para ver o óbvio. Inebriado pela adrenalina ou pelo entretenimento que adestra os sentidos, o essencial pode ficar velado. O passatempo consome a hora da ação e do pensar. Será isso a vida? Passar o tempo, lutando para não o ver? A ocultação do tempo faz justamente essa a promessa, promessa tão bem cumprida que o passado chega como futuro. Sem perceber, os sentimentos mais primitivos do mal elementar ressurgem sofisticados: a nova política. A distração passa ser bem de consumo, uma dimensão do conforto buscado a ponto de parecer uma utopia, mas é um subterfúgio para não encontrar o mal-estar presente. Na espiral da busca por passatempos, toda forma de mal-estar se converte em um único grande mal-estar: sair do tédio, devendo ser evitado mesmo que isso signifique conservar a dor.

                              O revolucionário distraído e o tédio: não se sabe quem fez morada a quem. A distração desanima o sonho, alentando a resignação violenta. Para essa tarefa surgem vários signos. Aí a arte aparece, mas vira publicidade, que é arte que promete bem-estar; por isso deixa de ser arte. Para a resignação violenta, a arte sempre é pervertida, ainda mais quando a perversão anda tão (bem) comportada nos anseios de quem se satisfaz com as sobras. Em uma rajada discursiva, Wilheim Reich, trata daquele que assume uma condição de submissão existencial e se torna visceralmente hostil às transformações sociais: Reich chama-o de Zé-Ninguém (Kleinen Mann). Com relação à condição cognitiva do Zé-Ninguém diz o autor:

Seu raciocínio é míope, Zé-ninguém: você não enxerga mais longe do que do café da manhã ao almoço. Precisa aprender a pensar para trás e para frente, ao longo dos séculos. Precisa aprender a pensar em termos da vida como um todo, do seu desenvolvimento desde o primeiro floco plasmático até o animal humano que caminha ereto, mas continua a pensar de forma tortuosa. Como não tem memória para coisas que aconteceram há dez ou vinte anos, você ainda repete os mesmos disparates de 2 mil anos atrás. Pior, você se agarra com unhas e dentes a absurdos como “raça”, “classe”, “nação” e à obrigação de seguir uma religião e reprimir seu amor. Você tem medo de reconhecer a profundidade da sua desgraça. De quando em quando, consegue erguer a cabeça do atoleiro para gritar: “viva!”. Um sapo coaxando num charco está mais próximo da vida. [1]

                                 A apatia também se faz da ilusão de que é possível encontrar saídas individualmente para as desgraças coletivas, as quais seriam previsíveis pelo gênio individual. Diante da suposição de um mundo simples e objetivo, cujos problemas refletem em suas causas esta singeleza e objetividade, cada um pode construir respostas individuais no mesmo nível e, por si, apostar em saídas para si, saídas que não superam a injustiças das relações sociais, mas se aproveitam delas, num movimento que as naturalizem. Assim, a precariedade das velhas respostas é preferível ante a agonia das novas perguntas. A aversão a tudo aquilo que não pode simplificar é uma marca da mentalidade reacionária. A complexidade dos fenômenos lhe é ofensiva porque ela só é superada pela implosão da imagem de vencedor, ou seja, admitir-se vítima do desconhecimento. Mas isso significa trair o mantra: “não aceite o papel de vítima!”; em contínuo, a complexidade do mundo caberá no seu modo de ser através do ódio.

                           A grandiosidade da luta pela satisfação de necessidades faz crer que o êxito nestas batalhas tem um caráter satisfativo também na dimensão utópica do ser humano. Extenuado pelos rigores da labuta para conseguir um padrão de vida que supere a miséria, o cidadão de bem tende a ver nela a grande luta existencial. Melhorar de vida é tão exigente que mudar o mundo, além de dispensável, só pode ser feito por expedientes que demandem esforços menores, como economizar água, não usar canudinho, fazer alguma caridade ou plantar uma árvore. Mudar de vida é mais acessível, menos arriscado e tão penoso quanto mudar o mundo.

                                Nisso se forja o vazio utópico, o qual pode ser percebido na desvalorização de ideais coletivos, em prol de satisfações pessoais. O vazio utópico fomenta o preconceito como critério de escolha, com isso o individualismo se permite destruir o mundo pela indiferença. Neste contexto, surgem os paliativos utópicos, causas de caráter privado ou comportamentos individuais que traduzem uma preocupação coletiva e humanitária que passam a ser dimensionadas como as grandes causas capazes de melhorar o mundo, sem a necessidade de uma ação coletiva que atinja em profundidade o modo de produção vigente. A práxis dá lugar ao comportamento alternativo, e a teoria política vira só um estilo de vida. Com isso, questões de ordem moral paralelas à necessidade de transformação social viram bandeiras, sendo sua relevância inflada a ponto de assumir a conotação de possibilidades de melhoria social. Neste âmbito, a família se torna uma bandeira política, com promessa de salvação; no mesmo sentido, a defesa dos animais exclui do seu foco os bípedes implumes.

                               “Com distração não há revolta”, há apenas resignação violenta. A violência passa a ser o escudo protetor do contentamento, com ele se produz um paliativo para satisfazer o desejo por segurança. Por esta lógica, o diferente (outro) irrompe como sendo portador do medo; com isso, justifica-se tratá-lo com violência, seja preventiva ou vingativamente. Nesse movimento, o contentamento adota a perversidade como prática moral, ou moralista, pois a perversidade é a violência contra os mais fracos. Neste sentido, firma-se a profissão de fé na perversidade, naturalizando a crueldade contra os mais débeis, vista como a única medida para conter o mal real ou virtual, mas, por outro lado, sataniza a violência insurgente das vítimas da sociedade. Fica clara a confusão entre justiça e vingança, do mesmo modo que o ódio é tido como revolta.

                           O surgimento da vítima diante do sujeito é acompanhado pela busca por uma culpa que justifique a situação de desgraça do outro, pois o distraído tende a vincular-se com o dominante. Ao identificar-se com o opressor, o oprimido busca emergir da realidade perversa, participando da violência contra grupos tão, ou mais subalternos. As lógicas perversas do poder e do capital são constitutivas do sujeito, por mais que elas lhe imponham uma dura condição. Sair do ciclo de opressão parece implicar desconstituir-se. A promessa de vitória e sucesso é feita a partir da profissão de fé aos ditames opressivos do sistema, ocultados por valores motivacionais, cuja função é camuflar a injustiça presente nas relações sociais. Estes valores motivacionais mobilizam o sujeito, indiferente à sociedade como a fonte e a solução do problema, alguém que precisa “vencer por si mesmo”, a ser o melhor.

                            O conjunto de valores motivacionais primeiro naturaliza, depois valoriza as relações de exploração e opressão, à medida que as pessoas, por um sistema de metas ou outras formas de aferição do esforço pessoal, devem merecer a satisfação das necessidades vitais. No desenrolar desta atitude, firmam-se os compromissos reacionários, o ódio aos agentes transformadores reais e imaginários, culminando com o desprezo pelo conjunto de subalternos, grupo no qual se encontra.

                                 A denúncia feita ao distraído sobre seu pertencimento ao grupo de subalternos fortalece o sentimento de desprezo dos subalternos e a aversão às mudanças.  No sentido desta perversidade se dá o combate à justiça social, passando a afirmar que as trocas desiguais, feitas por pessoas em posições desiguais, são justas na medida que a desigualdade é sustentada pelo pressuposto mérito dos que se encontram em posição de superioridade, sendo que tal mérito pode ter sido herdado. O mérito é o verniz discursivo do oportunismo ou da herança, ambos em um horizonte de exploração e negação do outro.

                           Nesta lógica, é fundamental para o oprimido distraído, em sua “cronologia da decadência”, negar as assimetrias socialmente postas. Mas esta negação das assimetrias tem um caráter de franca adesão à perversidade sistemática e, neste ponto, a perversidade e o contentamento dados pela distração passiva se complementam, sendo que a possibilidade de participar dessa perversidade sistemática, mesmo que de forma submissa, torna-se um fator de contentamento. O operário branco do sexo masculino, por exemplo, conforma-se em receber menos em um contexto em que mulheres e negros recebam menos ainda. Deste modo, ocasional e superficialmente, ele sentirá uma sensação de privilégio, que o fará sentir-se igual a quem domina.

                               No entanto, a busca pela contenção do risco reforça a solidão, afinal, o risco mora no improvável, e o improvável está no diferente. Com isso, a monotonia é vista como proteção. Surge também a solidão de quem está perdido na multidão, à medida que as experiências de massa formam uma companhia que segrega pela indiferença. Desamparado e só, “ la soledad és la propriedad más privada” (Benedetti).

                           O consumo é o balsamo para a monotonia, sendo uma espiral sem fim, pois à medida que ele se aprofunda, também se torna fonte de monotonia. O tédio se mostra como saída contra o risco: padrões de indústrias de qualidade nos produtos e nas expectativas. A vida passa, assim, a ser vista como um conjunto de metas e não com um projeto.

                                A violência se fortalece como um elemento de conformação, seja pela dor, seja pelo medo. Afinal, o enrijecimento das punições atinge a quem? Atinge com maior incidência, embora com menor dor, aquele que não tem razões para delinquir. Atinge-o pelo temor. É característica do medo apresentar-se àqueles que possuem algo a perder, ou que assim creem.

                                   As tragédias ocasionais são um momento de alívio ante a carga da crueldade cotidiana. Nas tragédias é permitido aflorar compaixão e generosidade sem a necessidade das justificativas da razão instrumental. Permitem, também, estabelecer um vínculo alteritário, sem medo, sem sentir-se fraco, mas, principalmente, sem grande risco, pois o outro se encontra em situação de fragilidade tamanha que, dificilmente, venha a ser o predador que se aproveite da compaixão do “cidadão de bem”. Após, é possível colonizá-lo com as crenças de bondade e as verdades embutidas em falsa caridade. Ao mesmo tempo, as tragédias ocasionais funcionam como um consolo que revigora o contentamento dos oprimidos, que assim se conformam com a tragédia cotidiana. Talvez a apatia do revolucionário passivo se rompa pela memória daqueles que foram queimados no altar ou, ao menos, leve-o a indagar: quem salvará nossos filhos de nós? No Holocausto - que significa todo queimado- a oferenda apascenta as divindades, mas não amaina seus ditames. Na oferenda e no patriarca os rostos se assemelham pela contrição, afinal, o deus-mercado nos pede o futuro em holocausto e as vidas que parimos serão a prova de fé no acúmulo. No ritual a oferenda vem antes da profissão de fé.

                                 Por mais despido que esteja, ninguém está nu se o rosto não estiver exposto. O rosto é a advertência feita pela interpelação ética; cada rosto inscreve em suas marcas o apelo fundante da alteridade: “deixe-me viver” (Lévinas, Dussel, Sidekum). Todo semblante infantil, em sua inocência a ser perdida, rememora o amparo. Para manter a ternura é preciso não perder a inocência que tem aquele que se percebe amado ou, ainda, que é inocente demais para percebê-lo.

De novo Benedetti:

Tengo una soledad/ tan concurrida/ tan llena de nostalgias/  y de rostros de vos/ de adioses hace tempo/ y besos bienvenidos de primeras de cambio/ y de último vagón./Tengo una soledad
tan concurrida/ que puedo organizarla/ como una procesión/ por colores/ tamaños/ y promesas/ por época/ por tacto/ y por sabor./ Sin temblor de más/ me abrazo a tus ausências/ que asisten y me asisten/ con mi rostro de vos./ Estoy lleno de sombras/ de noches y deseos/ de risas

 y de alguna maldición./ Mis huéspedes concurren/ concurren como sueños/ con sus rencores nuevos/ su falta de candor /yo les pongo una escoba / tras la puerta / porque quiero estar solo /con mi rostro de vos./Pero el rostro de vosmira a otra parte/ con sus ojos de amor/ que ya no aman/ como víveres que buscan su hambre/ miran y miran/ y apagan mi jornada./Las paredes se van/ queda la noche/ las nostalgias se van/ no queda nada.Ya mi rostro de vos/ cierra los ojos/ y es una soledad/ tan desolada.

 

                                      A “Oferenda do Patriarca” permite a fusão de horizontes com o dilema de Abraão, o patriarca da fé. A lei determinava que o filho fosse sacrificado como oferenda; com o propósito de cumprir com o sacrifício, Abraão tomou seu filho Isaac e pôs sobre os ombros do menino a lenha para o sacrifício. Quando Isaac marcha para o sacrifício, seguindo Abraão, para ajudá-lo a preparar, perde a inocência ao perguntar: “As brasas e a lenha estão aqui, mas onde está o cordeiro para o holocausto?”. O brilho do rosto do filho mais amado desperta o anjo da consciência de Abraão: um deus assim não pode ser adorado! A voz correndo pelos campos o interpela para ser seu pai, essa é a lei (Hinkelammert).

                                 A fé nasce da ruptura com a lei pela sensibilidade de quem é afetado pela interpelação ética de um rosto. A fé nasce da ruptura com a regra-costume, que faz da responsabilidade pelo outro, em desamparo a verdadeira lei, sempre a nova lei. Assim, nasce a fé na vida: da transgressão à devoção ao mito devorador das proles, que nega o futuro em razão do passado.

                                  Uma criança em campo aberto tem sua ternura sustentada no amparo. Na imagem dessa criança, reside a busca por amparo que existe em cada um. Por isso um signo é mais do que ele pode significar, por isso a arte é sentir o significado, isto é, o sentido: é um perder-se atemporal na interpretação dos ícones. A arte nos joga pra fora do tempo. Nos versos de Fernando pessoa encontra-se a invocação da condição de criança que a necessidade de amparo remete a todo ser humano, por mais adulto que seja:

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim."

 

                              Vale a pena lutar pela liberdade de todos? Sabendo que os contentados irão reclamar por mais autoridade e amarão as amarras com devoção filial, crentes que elas os salvam da terrível angústia de pôr–se diante do mundo e ter que decidir sobre ele e sobre si, com a consciência de que trata-se de um ato único? Apesar de tudo, é a luta que nos salva, sim, da apatia e que nos mantém na ternura.

                           Enfim, os sentidos que a arte possibilita compreender e, mais que isso, sentir, no caso da “Pequena Coleção Poética das Advertências”, dizem, a mim ao menos, sobre a crueza deste tempo, mas revelam também, em sua palavra implícita, o bálsamo das novas auroras, com a crença de que “é possível apressar o amanhecer” (Toquinho/ Belchior). Coragem, filho da luta!

                                         Grato ao autor por compartir os sentidos sentidos em sua obra e em sua vida.

                                                                                               Samuel Radaelli.

 

Samuel Mânica Radaelli possui graduação em Direito pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul- UNIJUI (2005), mestrado em Direito Público pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos- UNISINOS (2007), doutorado em Direito pela UFSC. Atualmente é professor do Instituto Federal do Paraná-IFPR e advogado. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Ciência Política, Direito Constitucional, Filosofia e Sociologia Jurídica, atuando principalmente nos seguintes temas: teoria constitucional, alteridade,direitos humanos.

 

[1] REICH, Wilhelm. Escute, zé-ninguém. Trad.: Waldéa Barcellos. 2º ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p.100-101.